Giro do Vale

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Dona Nadit chega aos 100 anos: uma vida simples, marcada pela fé, pela família e pelas flores

Nadit com as flores que alegra os seus dias nessa vida centenária. (Foto: Juliano Beppler)

No dia 15 de janeiro de 2026, a matriarca Nadit de Amorim Martins completa 100 anos. Um século inteiro de memórias guardadas no coração, de trabalho na terra, de perdas e recomeços, de fé firme e uma família que cresceu como árvore frondosa — com raízes profundas na simplicidade do interior, ali onde o Rio Taquari acompanha a paisagem e a vida segue no ritmo da natureza.

Nadit nasceu em Bom Retiro do Sul e foi criada na região do interior do município, em um cenário onde a sobrevivência dependia do que a roça dava. A agricultura era o sustento, e o esforço diário era parte da rotina de quem aprendeu cedo que nada vem fácil.

Mas, na história dela, há também ausência. Nadit conta que não chegou a conhecer a própria mãe. Cresceu sob os cuidados do pai e da madrasta, carregando desde cedo responsabilidades de gente grande. E, como tantos brasileiros e brasileiras do campo em outras épocas, nunca frequentou a escola — por isso, não é alfabetizada.

Ainda assim, transformou uma falta em propósito.

Mesmo sem ter tido a chance de estudar, Nadit fez questão de que todos os filhos fossem à escola. Era uma decisão silenciosa, mas poderosa: garantir aos filhos o que ela não teve. Hoje, segundo a família, o resultado está no que mais orgulha a centenária: “todos são pessoas trabalhadoras e, acima de tudo, unidos.”

Uma família que atravessa gerações

Nadit se casou aos 19 anos e construiu uma família grande, como era comum nas comunidades do interior. Teve oito filhostrês homens e cinco mulheres. Três deles já partiram, deixando saudade e lembranças, mas também a sensação de que o amor permanece mesmo quando a vida muda de forma.

A família, hoje, carrega o retrato vivo desse legado: são 12 netos, nove bisnetos e duas tataranetas. Gente que se multiplica em risadas, visitas, histórias repetidas com carinho e aquele sentimento bom de casa cheia — ainda que nem sempre todo mundo esteja presente ao mesmo tempo.

Viúva aos 48, fiel ao que escolheu amar

Outro marco na vida de Nadit foi a viuvez. Ela perdeu o companheiro quando tinha 48 anos e, desde então, não quis ter outro relacionamento. Escolheu dedicar o tempo, o afeto e a energia à família.

Foi uma escolha firme, sem alarde, como tantas decisões tomadas no interior: sem discurso, mas com convicção.

Há cerca de 30 anos, Nadit vive com a filha mais nova, Lizete Martins, de 57 anos, e o genro Anselmo Daniel Masin da Rosa, também de 57. Eles dividem a rotina — e principalmente o cuidado — com a centenária, que retribui do jeito que sabe: com presença, participação e vontade de seguir útil.

Saúde em dia e rotina ativa: “Gosto de trabalhar na horta”

Aos 100 anos, a saúde de Nadit chama atenção. Segundo Lizete, a mãe quase não precisa de medicamentos e mantém uma rotina surpreendentemente ativa.

E não é força de expressão. Nadit gosta de participar das tarefas da casa e se orgulha disso. Com brilho no olhar e firmeza na voz, ela mesma conta:

“Faço comida, ajudo a limpar a casa, gosto de trabalhar na horta plantando verduras.”

O corpo pode ter um século, mas o espírito segue com vontade de fazer, de mexer na terra, de ver o verde crescer. É como se, de alguma forma, a infância na agricultura ainda morasse nela — e talvez seja justamente isso que a mantém de pé.

Há cerca de 30 anos a matriarca mora com a filha Lizete. (Foto: Juliano Beppler)

Fé que sustenta: “Foi Deus que me permitiu chegar até aqui”

Entre todas as marcas da vida de Nadit, uma se destaca com clareza: a religiosidade. Ela fala com naturalidade sobre a fé, como quem fala do próprio sangue — algo que não se explica, apenas se vive.

“Foi Deus que me permitiu chegar até aqui, e com saúde”, diz ela, emocionando quem escuta.

Nadit faz questão de dizer que gosta de ir à missa e, enquanto conversa, deixa escapar pequenas melodias, cantarolando músicas religiosas. É um detalhe simples, mas cheio de significado: a fé, para ela, não é um evento — é companhia de todos os dias.

O “segredo” da longevidade: falar pouco, cuidar da vida e ser feliz

Quando perguntada sobre o segredo de chegar aos 100, Nadit não entrega receita milagrosa. O que ela oferece é algo mais raro: um jeito de olhar para a vida.

Ela diz que o segredo é falar pouco, cuidar da própria vida e ser feliz. E completa, com uma sinceridade que desarma qualquer pessoa:

“Temos que ser felizes, com nosso Senhor Jesus Cristo, não adianta andar emburrada.”

Na frase, vem o conselho — e também vem o sorriso. Um sorrisão, daqueles que parecem iluminar o ambiente e, por alguns segundos, fazer todo mundo acreditar que dá, sim, para atravessar o tempo com leveza.

Vaidade nunca foi prioridade. As flores, sim.

Nadit nunca foi vaidosa no sentido comum. Não usa maquiagem, não pinta as unhas e nem se acostumou com acessórios como brincos e afins. Mas isso não quer dizer que ela não tenha enfeites na vida.

Os enfeites dela são outros.

Flores. Uma paixão antiga, firme, dessas que não se negociam. Nadit não abre mão de ter flores por perto. E define sua filosofia com uma frase que parece ter saído de um livro — mas saiu da própria alma:

“Casa que não tem flor, não tem amor.”

E talvez esteja aí a imagem mais bonita de seus 100 anos: uma vida sem exageros, sem pressa, sem máscara — mas com fé, união e flores. Como se o essencial, no fim, sempre tivesse sido suficiente.

Para marcar esse momento especial, a família de Nadit de Amorim Martins prepara uma comemoração no final de semana, reunindo parentes e pessoas próximas para celebrar o século de vida da matriarca. A ideia é transformar a data em um encontro de gratidão e memória — do jeito que ela mais valoriza: com união, carinho e a casa cheia.

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